Os que acompanham minhas postagens no blogue Agricultura Irrigada já devem ter notado que eu faço distinção entre dois tipos de Agricultura que se desenvolveram nos Cerrados brasileiros, a saber: (i) Agroindústria de Processamentos (transformação); e (ii) Agricultura de Manufatura (trabalho em máquina caseira ou o fazer manualmente). No primeiro caso, tanto produtos de origem animal (exceto ovos, por exemplo) como de origem vegetal, a matéria prima oriunda do Setor Primário passa por Cadeias Produtivas completas, incluindo a transformação (processamento) em produto final. No segundo tipo predomina a Cadeia Produtiva Curta (CPC), em que o principal processamento se dá na cozinha dos consumidores. A “manufatura”, nesse caso, consiste apenas em limpar/assoprar e lavar o produto para a embalagem e entrega. O Quadro 01 busca esquematizar essa diferenciação.

1.         Agroindústria de Processamentos

Os sistemas de produção agrícola que se desenvolveram nos Cerrados são orientados a grandes lavouras, principalmente localizadas nas chapadas, geologicamente primeiras superfícies, como é o caso da soja, milho, sorgo, algodão, cana de açúcar e forrageiras e pastagens, destinados essencialmente ao arraçoamento/alimentação animal.

Da soja, 80% é para o fabrico de rações, 18,4% biodiesel e outros fins industriais e 1,6% para a alimentação humana – óleo de cozinha, margarinas, leite de soja, salsichas etc, assim como o milho e o sorgo (100%), o algodão, tirando a pluma e um pouco de óleo, o restante é para a alimentação animal. Depois que se proibiu a queima da cana de açúcar, os plantios passaram para as chapadas com destino à bioenergia, cachaça e açúcar de consumos humano, e o restante todo destinado à produção animal.

Com o advento das técnicas de cultivo mínimo, plantio direto ou plantio na palha, e o maquinário apropriado a essas novas técnicas, estão sendo erradicados os terraços e curvas de nível, bem como as bacias de contenção, voltando a se ter problemas com erosão laminar, com retenção de umidade nos solos e, conseqüente, descobrimento do solo com matéria viva ou morta.

Um importante papel dos chapadões dos Cerrados na retenção e recarga dos lençóis freáticos e dos principais aqüíferos que alimentam as bacias hidrográficas que circundam a área core dos Cerrados, passa, também, a ser prejudicado. A técnica do no tilage ou minimum tilage acaba por não merecer todo o crédito que lhe foi atribuído nos primórdios de sua implantação.

As chapadas dos Cerrados deveriam ser olhadas sob esse prisma de “produtor de água”.

Essas lavouras dependentes de chuvas (rainfed agriculture), com variedades e cultivares de ciclos mais curtos possibilitaram duas semeaduras/safras no mesmo período chuvoso – soja e milho e/ou sorgo – e quando em presença de água e de energia elétrica, os imóveis passaram a implantar lavouras irrigadas no período seco mediante pivôs centrais e incluindo cultivos como de feijão, batata, alho, cebola e outros, destinados à alimentação humana.

A importância dessa linha de produção não se discute. A alimentação animal, produção e exportação de carnes e derivados fez do Brasil um dos grandes players do agronegócio mundial. O que se discute é como fica a alimentação humana?

QUADRO 01 – Esquema ilustrativo da tendência do agronegócio exercitado no Brasil e do que será necessário exercitar no futuro para assegurar alimentos sadios e frescos às comunidades humanas no Brasil e no Mundo. Concepção gerada por Elmar Wagner para o blogue Agricultura Irrigada. Brasília/DF. Brasil.

São duas linhas bem características com orientações definidas e tecnologias próprias a cada caso, notadamente em termos de maquinários e de fertilizações/manejos com insumos adequados. Do tradicional/convencional para a agricultura do futuro o grande diferencial é o de “produtor de água” em nível de imóvel rural e de procedimentos de monitoramento mais acurados na Agricultura Irrigada.

2.         Agricultura de Manufatura

Segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação), a Agricultura compreende lavouras, criação de animais, pesca e florestas. No caso presente, a alimentação está sendo olhada entre a animal e a humana em função do Reino Vegetal e a respectiva nutrição e manejo de plantas.

Segundo TYLOR, EDOUARD B. “cultura é todo complexo que inclui o conhecimento, crenças, arte, moral, leis, os costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridas pelo homem/mulher, como membros da sociedade”.

Agricultura, portanto, é a cultura agrícola de comunidades e povos em produzirem ou, simplesmente, extraírem produtos de origem vegetal e animal da natureza para as suas necessidades.

É sabido que não são as respostas que movem o mundo, são as perguntas, e que a melhor forma de prever o futuro é criá-lo, arquitetando um cenário favorável. Qual seria uma estratégia de comunicação para disseminar a idéia da Agricultura Irrigada?

Uma série de produtos que se enquadram em FLV – Frutas, Legumes e Verduras, por serem altamente perecíveis, são tratados em CPC – Cadeias Produtivas Curtas, isto é, depois de colhidas passam por mínimos processamentos de limpeza e embalagem, para a entrega e consumo direto pelos consumidores.

Não é a distância entre a produção e a entrega para consumo que faz a Cadeia Produtiva ser curta. O coco produzido em Pernambuco é transportado ao Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília, e nessas pontas o fruto só recebe um ato de processamento: o do facão afiado e os seus três golpes/cortes, para a introdução do canudinho. A banana não requer nem limpeza e nem embalagem para o consumo in natura.

Esses e outros tantos cultivos aproximam bastante seus procedimentos aos da idéia de Agricultura Irrigada fossem eles mais e melhor monitorados, pelo menos, com baterias de piezômetros, de tensiômetros e com estações meteorológicas on line e de baixo custo, para acompanhamentos de água nos solos e de calor, radiação solar, ventos, umidade relativa e precipitações. São instrumentos que permitem o conhecimento para o manejo da água nos solos e de plantas e seus respectivos consumos, ao lado de análises laboratoriais.

A adoção do conceito de Ciclo Hidrológico Curto – CHC favorece a proposta/idéia de “produtor de água”, ou seja, de fazer com que a água que chega ao imóvel seja mantida nele pelo maior tempo possível, quer seja oriunda de chuvas, escorrimento superficial ou de fluxo base/águas subterrâneas – lençol freático e aqüífero – mediante práticas agrícolas e de engenharia apropriadas.

Em nome dessa tendência de consumir produtos alimentares sadios e frescos, em várias partes do Mundo técnicos, cientistas e acadêmicos estão propondo uma série de modelos e sistemas de produção, quase todos convergentes à uma mesma proposta de agricultura familiar, com as denominações de agricultura natural, orgânica, ecológica, permacultura, verticrop, biochar, e tantas outras, inclusive de Agricultura de Baixo Carbono (ABC), e de Integração Lavoura – Pecuária – Floresta (ILPF) e suas derivações.

O enfoque da iLPF – Integração Lavoura-Pecuária-Floresta, como estratégia de produção que integra diferentes sistemas produtivos de agricultura dentro de uma mesma área, pode ser feito em cultivo consorciado, em sucessão e/ou em rotação, de forma que haja benefício mútuo para todas as atividades.

Dentre algumas otimizações perquiridas, a busca em reduzir a pressão para abertura de novas áreas alia-se a uma série de benefícios, com destaque para a maior e melhor eficiência na utilização dos recursos naturais, podendo ser utilizada em quatro modalidades: iLP; iLF; iLSP; e iLPF.

Pesquisa realizada pelo Keffmann Group, a pedido da Rede de Fomento iLPF, estimou a área de adoção da estratégia em 11,5 milhões de hectares, no Brasil.

Essa estratégia, acrescida de Projetos Ambientais compreendendo Áreas de Proteção Permanente (APP) e Reservas Legais (RL), também sob a forma de PCA-RCA, em nível de imóvel rural, com o grande objetivo de “produção de água”, ajusta-se inteiramente a idéia de Agricultura Irrigada em proposição. Fica a indagação?