A disponibilidade de água para as plantas (DA) é função direta do regime de chuvas, da capacidade de retenção hídrica do solo e do potencial de evapotranspiração de cada área. A distribuição espacial e temporal das chuvas é muito variável, dentro da estação chuvosa, durante o ano e entre os anos, dificultando a definição de um padrão indicador da DA, entre os quais tem sido mais adotado: número de dias úmidos e número de dias em que a precipitação pluviométrica é maior do que a evapotranspiração potencial. A DA tem sido considerada como o fator determinante de maior relevância para a ecologia das savanas e, conforme discutido adiante tem um papel primordial na definição do potencial agrícola de cada região.

A análise das informações disponíveis revela, contudo, que a precipitação pluviométrica apresenta enorme variabilidade em termos espaciais e mesmo local enquanto quantidade e distribuição durante o ano, constituindo-se em fator preponderante na disponibilidade de água para as plantas e, conseqüentemente, na ecologia das savanas e no seu potencial de uso. Tendo em vista que o índice de evapotranspiração é similar, a disponibilidade de água para as plantas é função direta da diferença entre a PPMA – Precipitação pluviométrica média anual e a EPMA – Evapotranspiração potencial média anual.

A disponibilidade de água para as plantas é uma resultante da interação entre clima e solo, constituindo-se em fator determinante da ecologia das savanas, conforme já discutido. Contudo, a questão da disponibilidade de água é mais profunda quando se discute o potencial de uso intensivo das savanas, incluindo agricultura de sequeiro (pluvial) e irrigada, sob a forma de Agricultura Irrigada.

Um exame da disponibilidade de água doce no ecossistema savanas tropicais (Tabela 01) evidencia a grande diversidade entre continentes e países.

Tabela 01. Disponibilidade de água em países sob savanas tropicais, distribuídos por continentes ou regiões/países.

(Fonte: Clarke e King, 2005).

De 31 países considerados, mais ou menos representativos e com superfícies variadas, 6 países (Botsuana, Etiópia, Senegal, Tanzânia, Chade e Nigéria) encontram-se em condições de água insuficiente; 5 países (Zimbábue, Somália, Quênia, Uganda e Benin) estão no limite de água, alguns já com água escassa; outros 9 países (Namíbia, Malaui, Moçambique, Mali, Zâmbia, Costa do Marfim, Tailândia, Vietnam e Camboja) apresentam relativa abundância de água; e 11 países (Brasil, Colômbia, Venezuela, Angola, Rep. Dem. do Congo, Camarões, Guiné, Rep. Central da África, Burma, Laos e Austrália) têm abundante disponibilidade de água. Em suma, 2/3 dos países (65 %) com savanas tropicais não apresentam problemas de deficiência de água. No limite encontram-se 16 % e já com insuficiência de água estão 19 % dos países.

Como a agricultura é a grande usuária de água (~70 %) principalmente para a irrigação, ela também tem um grande potencial de resolver o problema global de escassez de água. Qualquer melhoria de processos que se alcance no manejo da água, por exemplo, com o uso de sistemas de irrigação localizada, e dos solos, por exemplo, com o uso das técnicas de plantio direto, podem resultar em economia de água de 30 % ou mais.

Dentre as questões que deverão ser enfrentadas pela humanidade no futuro incluem-se: água, alimentos, energia, meio ambiente e pobreza. O equacionamento destas questões exigirá grande responsabilidade das sociedades dos países e regiões no qual o ecossistema savana é preponderante, em termos de desenvolvimento equilibrado do agronegócio. De forma simplificada, o agronegócio pode ser entendido como o conjunto de atividades, de caráter familiar e/ou empresarial, envolvidas na produção, transformação e consumo de produtos de natureza agrícola.

O desejado equilíbrio entre sociedade, agronegócio e recursos naturais, tema destes eventos sobre savanas tropicais, reserva grandes desafios e abrange decisões estratégicas. Acredita-se, contudo, que o desenvolvimento tecnológico será o fator determinante de maior relevância no atingimento deste equilíbrio.

Uma representação esquemática dos principais fatores ou componentes e de suas inter-relações, envolvidos na busca de um agronegócio sustentável nas terras sob savanas tropicais é retratada na Figura 1.

A sociedade, guiada por seus aspectos políticos, econômicos, culturais e demográficos, exerce pressão e interage com a base de recursos naturais, bióticos e abióticos, determinando a forma de uso das terras das savanas tropicais. Este processo envolve desde usos extensivos, como o pastoralismo, até usos intensivos, como a produção de cultivos comerciais.

 Figura 1. Representação esquemática das interações entre Sociedade/Estado, Ambiente/Recursos Naturais e Conhecimento/Tecnologia, para o equilíbrio do Agronegócio nas Savanas Tropicais.

Uma questão crucial no desenvolvimento tecnológico diz respeito à utilização da água, recurso escasso e já insuficiente em alguns países sob savanas tropicais, conforme mostrado na Tabela 01. A estratégia de equacionamento envolve dois níveis de abrangência, o local e o regional. A meta final, contudo, é a mesma, ou seja, obter a máxima relação produto agrícola por unidade volumétrica de água disponível.

No âmbito local é necessário desenvolver tecnologias que maximizem o aproveitamento da água da chuva para fins produtivos e minimizem as perdas inerentes ao ciclo da água no sistema solo/água/planta/atmosfera. Envolvem técnicas de manejo e conservação do solo, processos de cultivo e melhoramento vegetal.

O âmbito regional envolve o conhecimento para organizar o fluxo de água de um local para outro em função da topografia da região, tipo de solos e cobertura vegetal. Abrange técnicas para aumentar o tempo de residência da água no solo e retardar seu deslocamento, superficial e/ou subterrâneo, para os cursos ou corpos de água, constituindo-se numa ação de “produção de água”. Uma alternativa relevante será a estocagem de água e posterior utilização.

Em adição aos aspectos tecnológicos, o âmbito regional exigirá a cooperação entre países, tendo em vista que as grandes bacias hidrográficas extrapolam os limites geopolíticos. O fato de que as nascentes dos principais cursos d’água, responsáveis pela recarga dos aqüíferos, estejam localizadas nas áreas de savanas tropicais realça a importância dessa cooperação.

A utilização eficaz dos recursos naturais mais escassos e, por isto, determinantes primários do sucesso do agronegócio. Hoje o recurso mais escasso é a água, situação que exigirá concentração de esforços, tecnológicos, políticos e gerenciais, no sentido de otimizar a relação produção/unidade de água disponível para agricultura.

Para as savanas tropicais é imprescindível aumentar a relação produção agrícola /unidade de água disponível e considerar o benefício advindo da Agricultura Irrigada e de suas relações com a Agricultura de Sequeiro, responsável maior pela “produção” de água doce.

A transformação do potencial agrícola das savanas tropicais em realidade vai exigir inovação, conhecimento, investimento, profissionalismo e empreendedorismo para se atingir o desejado equilíbrio entre sociedade, agronegócio e recursos naturais. Enfim, essas são exigências para se atingir uma compatibilização entre crescimento econômico e desenvolvimento sustentável, tema central destes eventos.

Este texto foi uma contribuição à preparação do Capítulo Savanas Tropicais  no IX Simpósio Nacional do Cerrado e II Simpósio Internacional das Savanas Tropicais, realizado em Brasília/DF, Setembro de 2008.