A literatura brasileira e mundial é razoavelmente vasta no trato das questões relativas á irrigação e, muito pouco, à drenagem, referindo-se sempre a formas de aplicar água às plantas e os métodos e sistemas de fazê-lo. Nisso ela é mundialmente acusada de ser a maior usuária de água doce (fresh water), a que mais desperdiça e a de menor valia no uso da água. Os debates sobre as contribuições da irrigação e os benefícios potenciais que poderiam ser alcançados pela redução de perdas e alocação em usos de mais valia e prioridade, não têm sido ajudados em virtude de confusões que se manifestam a começar pelo que significa “uso consuntivo da água” e chegam ao que se define como “eficiente uso”, fora as divergências entre usos para irrigação e para a geração de energia, do tipo um consome e outro apenas utiliza. A confusão que se estabelece é muito grande.

Por outro lado, as expressões “produção de alimentos” e “segurança alimentar”, intimamente ligadas á disponibilidade e segurança no suprimento de água, levam ao entendimento de que “segurança” significa irrigação, de vez que 40% da produção mundial de grãos provém de 20% das terras irrigadas.

Enquanto os corpos de águas superficiais eram suficientes para suprir as necessidades de irrigação, essa prática era analisada e tratada separadamente em projetos de engenharia de irrigação e, quando em perímetros públicos, separada até da municipalidade e das unidades federativas do país, criando-se os chamados “distritos de irrigação”.

Irrigação então, como definição mundialmente aceita, é a captação artificial e a aplicação de água para suprir as necessidades de plantas, usualmente entendida por envolver barragens, poços, canais e distribuição, e com uma série de interveniências agrícolas desde o preparo dos solos, adubações corretivas, adubações de semeaduras e de plantios, adubações de cobertura, controles de invasoras, doenças e pragas, bem como práticas de colheita e pós-colheita. Uma prática corrente é a de proteção contra erosões e evaporação direta com uso de lonas plásticas em horticultura e produção de algumas fruteiras (protected cultivation) e, mais recentemente, com o uso de “cultivo mínimo” ou plantio direto. Em projetos mais tecnificados usa-se da fertiirrigação e da quimioirrigação, sempre relacionadas a uma espécie vegetal.

A irrigação é uma prática agrícola que, se bem dimensionada e operada, desempenha um papel fundamental para a sobrevivência de plantas e para a produtividade. Em Goiânia, no final dos anos 1970, introduzimos a irrigação em parcelas num ensaio em branco com mais de cinqüenta hectares de arroz de sequeiro. As interveniências seguiram o padrão de boas práticas de preparo dos solos, adubações e tratos recomendados pela pesquisa, acrescentando água em diferentes dosagens nas parcelas. O material genético foi a Var. IAC 1146, com expectativa de produtividade de 1.000 kg/ha em condições de sequeiro, enquanto que com a melhor dose de água atingiu 2.400 kg/ha. O benefício adicional ao aumento de produtividade foi a redução do risco devido a “veranicos”. Outros materiais de sequeiro desenvolvidos pela Embrapa, com irrigação, atingiram até 3.000 kg/ha. No Rio Grande do Sul, com irrigação por inundação, a produtividade média do cultivo de arroz é de 8.000 kg/ha.

Desde os anos 1950, áreas ou glebas com FLV – frutas, legumes e verduras – utilizando irrigação são sistemas que mais se aproximam da concepção de agricultura irrigada.